QUE É UM PAPA?
Côn. Henrique Soares da Costa
Sepultado João
Paulo Magno, as atenções voltam-se, agora, para o Conclave que deverá eleger o
novo Papa de Roma. Hoje, como para tudo se tem uma opinião – até para o que não
se entende -, os noticiários estão coalhados de análises sem sentido, de visões
totalmente deturpadas e de opiniões simplesmente simplórias, demonstrando total
ignorância sobre o que é a Igreja e sua missão e sobre a identidade e missão de
um papa. É triste, pois essa situação mostra até que ponto o Ocidente encontra-se
desevangelizado... O cristianismo e a Igreja tornaram-se realidades exóticas,
curiosas, algo que já não mais se compreende...
Papa. Eis uma
palavra que desperta tantas emoções: desprezo, ódio, mil preconceitos,
desconfiança ou, enfim, veneração, respeito e amor. Que é um papa? Ele é, antes
de tudo, Sucessor do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor Jesus deu o primado sobre
os Apóstolos e sobre todos os discípulos. Esse primado é de serviço e de amor,
de modo que o papa é o primeiro responsável por testemunhar Jesus Cristo, Filho
do Deus vivo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Salvador da humanidade. Sua
primeira missão não é, portanto, fazer coisas, viajar muito, emanar decretos e
normas, mas ser uma testemunha do Senhor Jesus, tal qual é acreditado, amado,
adorado e anunciado pela Igreja nesses dois mil anos de caminho.
Como Pedro
terminou seus dias em Roma, no seio da Igreja romana, dando aí o seu supremo
testemunho de amor a Nosso Senhor, derramando seu sangue por Cristo, os bispos
de Roma são sucessores de Pedro. Como Pedro, a missão deles é sempre recordar,
custodiar e proclamar a experiência fundamental da nossa fé: Jesus morto e
ressuscitado é o Cristo, o Filho do Deus vivo, o Salvador! O papa é, então,
Sucessor de Pedro como Bispo da Arquidiocese de Roma. Com essa Igreja romana
todas as outras Igrejas (= dioceses) devem estar em comunhão de fé e de amor –
esta é a convicção expressa desde os primórdios da Igreja e que foi se tornando
cada vez mais explícita, cada vez mais forte. Também todos os bispos,
sucessores dos Apóstolos, devem estar em comunhão com o Sucessor do Apóstolo
Pedro, a quem Jesus constituiu cabeça do grupo dos Doze e seu princípio de
unidade.
É uma visão
totalmente equivocada pensar o papa como o soberano do Estado do Vaticano ou
como um governador-geral da Igreja ou como um monarca absoluto. Nada disso: ele
é aquele que deve confirmar os irmãos na fé, com espírito de serviço e
caridade. Certo, que isso não significa não saber o que quer nem muito menos
admitir que a verdadeira fé apostólica seja colocada em perigo por doutrinas
falsas e ambíguas. Na Igreja, a proclamação da Verdade deve ser sempre caridosa
e a vivência da Caridade deve ser sempre verdadeira.
Quando um papa
toma posições sobre fé e moral, ele não o faz pensando no que o mundo acha ou
no que o mundo espera, mas somente na fidelidade à Palavra de Deus tal como a
Igreja sempre a escutou, interpretou e ensinou. As questões que não são
dogmaticamente fechadas e, por isso, são questões abertas, podem ser matéria de
modificações e esclarecimento por parte de um novo papa; já aquelas que são
questões de fé definidas, seja pelo ensinamento solene da Igreja seja pelo
ensinamento definitivo não admitem mais modificações. Por exemplo: um papa
poderia suspender a obrigatoriedade do celibato para os padres seculares, mas
não poderia admitir mulheres ao sacerdócio. A primeira é uma questão de
disciplina; a segunda é matéria de fé, ensinada de modo definitivo. Outro
exemplo: um papa poderia ainda avançar no delicado tema do uso de
anticoncepcionais, mas não pode jamais admitir o aborto ou uma bênção para
pares homossexuais ou afirmar que as relações homossexuais são de acordo com o
desígnio de Deus. Enquanto a primeira questão comporta alguns aspectos que não
estão fechados, as questões do aborto e dos homossexuais são definitivas pela
própria Palavra de Deus.
Então, pensando
na eleição do futuro papa, seria bom que ficasse bem claro o seguinte: (1) O
papa não é o dono da Igreja nem pode fazer aquilo que bem quer e entende. Ele é
o primeiro guardião da fé transmitida uma vez por todas aos cristãos e contida
na Escritura interpretada à luz da perene Tradição da Igreja. (2) Conceitos
como conservador, progressista, moderado, são conceitos muito relativos. O
compromisso do papa e de qualquer ministro de Cristo é com o Evangelho, não com
as expectativas do mundo. Um papa que estivesse preocupado em agradar à
sociedade secularizada não agradaria a Cristo! (3) As especulações da mídia sobre
quem será o futuro papa são desprovidas de fundamentos. Os cardeais votam de
acordo com sua consciência. Agora mesmo, neste período de silêncio e maior
conhecimento recíproco em que se encontram, podem surgir muitas possibilidades
novas, que a imprensa sequer sonharia. Basta pensar em João Paulo I e João
Paulo Magno – ninguém esperava a eleição deles. (4) A atitude correta para um
bom católico é rezar, suplicando a Deus que nos dê um Pastor sábio e santo,
apaixonado por Jesus e fiel à fé da Igreja. Somente assim é que se poderá
servir de verdade à humanidade.
Seja quem for o
próximo papa, Bispo de Roma, ele é o Sucessor de Pedro e, como tal, Pastor
supremo da Igreja de Cristo. A ele os cristãos devem obediência e respeito
sincero pelos seus ensinamentos. Outras considerações: sua origem, suas
posições teológicas, seu modo de ser, são de menor importância. Importa que ele
seja o que vem em nome do Senhor e, por isso, será bem vindo. No coração dos
católicos ficam sempre presentes as palavras do Senhor a Pedro: “Tu és Pedro e
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E as portas do inferno não
prevalecerão contra ela. Eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça:
confirma os teus irmãos! Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas!”.
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